Ailton Amélio

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O esforço temporário pode mudar suas motivações e seus estados de espírito

Ailton Amélio

Ninguém gosta de fazer esforços e agir deliberadamente para iniciar novos relacionamentos. Nada melhor do que essas coisas acontecerem naturalmente, sem nenhum artificialismo. No entanto, quando as situações atuais não oferecem boas oportunidades para iniciar relacionamentos amorosos e não há motivação suficiente para expor-se a outras situações, é necessário fazer esforço para mudar as coisas.

Duas histórias ilustrativas

Considere as seguintes histórias de pessoas que fizeram esforço para mudar e foram bem sucedidas:

Josie se esforça e volta a namorar

Josie estava sem namorado há bastante tempo. Nos meios sociais e profissionais que ela frequentava, não havia ninguém disponível que a interessasse. Ela não gostava de ir a baladas e também não gostava de aplicativos para iniciar relacionamentos.

Ou seja, ela estava sem namorado, não havia ninguém disponível que a interessasse nos meios que ela frequentava e ela não gostava de nenhuma das atividades que poderiam colocá-la em contato com novos possíveis parceiros.

Ela era razoavelmente atraente. Bastava expor-se a possíveis parceiros, em situações que facilitassem inciativas amorosas, que eles fariam contato.

Ela tinha boa capacidade para se ligar a novas pessoas quando tinha oportunidade de conversar com elas. Bastava conversar um pouco com pessoas receptivas para ela se envolver. Esse envolvimento gerava energia e interesse intrínsecos suficientes para manter os novos relacionamentos, sem necessidade de novos  esforços.

Assim, para sair da solteirice, o que ela tinha que fazer era passar temporariamente pelo desconforto de ir a locais que oferecessem oportunidades de contato com possíveis parceiros ou fazer usos de aplicativos para iniciar relacionamentos.

Cândido se esforça e consegue superar a tristeza do fim do namoro

Crer que existem situações e acontecimentos motivadores, crer que expor-se a elas da forma certa produz envolvimento e gera motivação, que há caminho eficiente para chegar lá e que consegue percorrer esse caminho possibilita e suscita a motivação.

A namorada de Cândido terminou o namoro com ele. Ele gostava dela, não queria terminar e, por isso, ficou muito abatido. Ele, no entanto, possuía um caminho muito eficiente para recuperar-se o mais rapidamente possível daquele pesar que estava sentindo: embora a dor que sentisse lhe tirasse a vontade para quase tudo, ele sabia que havia novas pessoas interessantes por ai, que podia atrai-las, e que elas se envolveriam com ele, e ele com elas, caso houvessem as oportunidades adequadas para fazer e ficar em contato com elas. Era só fazer o caminho de novo para essas novas relações.

No início, não teria vontade de começar atividades que facilitariam encontrar essas mulheres. Teria que esforçar-se para isso. Mas, logo que começasse a se relacionar com alguém interessante e receptivo, a energia do relacionamento lhe emprestaria motivação.

Quando o esforço vale a pena

1 – Você está precisando de ânimo ou motivação?

2- Você conhece alguma situação ou atividade que poderia contagiá-lo da forma que você precisa?

3- Você sabe o que fazer para criar ou se expor a essa situação ou atividade motivadora?

4- Você confia que esse caminho o levará a essa a essa situação ou atividade?

5- Você sabe como expor-se adequadamente a essa situação?

5- Você confia que se expondo adequadamente, há uma boa chance de ela contagiá-lo.

6- Você tem motivação suficiente para pegar o caminho até a situação e manter-se nela até que ela comece a envolvê-lo?

O esforço para expor-se a uma situação ou atividade potencialmente motivadora, seja ela amorosa ou não, com a finalidade de animar-se, funciona e vale a pena quando:

– Cremos firmemente que conhecemos o caminho para chegar essa situação motivadora. Conhecer o caminho e confiar nele é meio caminho andado (rs).

Cremos que temos as habilidades necessárias para trilhar o caminho e para lidar com a situação da forma adequada para que ela nos envolva positivamente. A falta dessa crença é um dos principais motivos do desânimo.

Temos motivação suficiente para trilhar o caminho até a situação e permanecer nela ou sabemos como recrutar motivação suplementar para essas tarefas. Muita gente decide no meio do caminho porque não tem motivação suficiente para persistir até obter resultados.

O esforço para trilhar o caminho e expor-se suficiente e adequadamente à situação não é grande demais. Quando o esforço é grande demais, ele se torna muito aversivo e frustrante, o que aumentará muito as chances de desistirmos e impedirá que a nova situação se instale.

O esforço é temporário. Ninguém quer permanecer por muito tempo em situações desagradáveis, onde há necessidade de comportar-se artificial e deliberadamente O esforço vale a pena, quando ele é temporário e produtivo. Em seguida, ele será substituído por motivações naturais geradas pela nova atividade, pessoa ou situação. As coisas boas da nova situação substituirão gradativamente a necessidade do esforço.

A exposição na nova situação ou atividade promoverá restruturação cognitiva positiva: mudaremos favoravelmente aquilo que pensávamos sobre a situação e de nós mesmos. Por exemplo, perceberemos que lidar com esse tipo de situação é mais fácil do que imaginávamos e que temos, sim, habilidade para lidar com ela.

Quando o esforço para expor-se a uma nova situação é grande demais, ele tem que ser diminuído

Existem quatro caminhos para diminuir os esforços necessários para expor-se às novas situações que não são motivadoras logo de cara:

(1) Corrigir as más interpretações que aumentam o esforço. Boa parte dos esforços da exposição a situações são puramente psicológicos e frutos de más interpretações.

Pode acontecer que antes da pessoa conseguir expor-se a situações que aumentem suas chances de iniciar relacionamentos, ela tenha que trabalhar as suas percepções, expectativas e sensibilidades que estão tornando essa participação demasiadamente pesadas para ela.

Por exemplo, achamos que é muito difícil atrair parceiros amorosos, que eles são difíceis de serem agradados e que não somos nada atraentes e não temos habilidades. Geralmente essas suposições embutem muito pessimismo.

(2) Dessensibilizar-se para diminuir a aversividade do esforço. Expor-se repetidamente a situações desagradáveis e não ocorrer nada desagradável vai diminuindo a aversividade.

(3) Aumentar gradualmente o grau de dificuldade e adversidade das situações nas quais acontecerão as exposições. Por exemplo, expor-se inicialmente a situações parecidas com aquelas menos ameaçadoras e mais fáceis de lidar. Ir aumentando gradualmente as dificuldades das situações onde irá expor-se.

(4) Preparar-se para agir eficazmente e ganhar confiança. Por exemplo, o terapeuta ajuda o paciente a encontrar e a treinar maneiras eficazes de lidar com uma situação que ele terá que enfrentar.

Você está desmotivado ou desanimado? Procure a ajuda de um psicólogo.

 

Sobre o autor

Ailton Amélio é psicólogo clínico, doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP (1985 - 2014). Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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