Ailton Amélio

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Não invalide seus sentimentos

Ailton Amélio

25/06/2017 12h45

Muitas vezes não temos vontade de realizar certas atividades. É difícil saber quando a falta de vontade acontece por “preguiça” ou quando ela acontece devido à falta de interesse. Por exemplo, talvez você seja daquelas pessoas que detestam as segundas feiras, não porque você tem preguiça de trabalhar, mas sim porque não gosta do trabalho que faz.

A tendência da maioria das pessoas é se cobrar por não estar realizando as tarefas assumidas e classificar essa falta de vontade  como “preguiça”. Essa classificação negativa é baseada na crença de que é correto e desejável cumprir os deveres, executar bem as tarefas e que o não cumprimento acontece por motivos não respeitáveis.

Quando deixamos de sentir aquilo que deveríamos ou sentimos aquilo que não deveríamos sofremos sanções sociais (condenação por parte das pessoas que quando tomam conhecimento desse fato) e sanções autoimpostas: sentimo-nos mal, culpados, errados, etc. pelos nossos sentimentos não corresponderem às expectativas.

Prescrições sociais sobre o que é correto sentir e não sentir

Somos educados para sentir coisas que são consideradas corretas e de bom tom pela sociedade e para não sentir coisas que ela considera erradas e de mau gosto. Temos que apresentar sentimentos, valores, gostos e performances socialmente prescritos. 

Por exemplo, somos pressionados para gostar de pintores “obviamente” bons, tipos de música “de bom gosto”, políticos “admiráveis” e maneiras de viver “exemplares”. Isso vai mais longe, existem as profissões admiráveis, o jeito admirável de se relacionar, o jeito admirável de se vestir. Somos julgados, aceitos ou rejeitados com base naquilo que sentimos, pensamos, desejamos e valorizamos.

Quem não se enquadra nos padrões oficiais que prescrevem o que devemos sentir, pensar e desejar fica com a sensação que não entendeu algo ou que tem algo de errado consigo.

Quando percebemos que discrepamos daquilo que é socialmente desejável, partimos para o disfarce. Fingimos que temos “bons sentimentos”: piedade, que admiramos certas causas. Estamos condenados a fingir que nos enquadramos na versão oficial.

O pior de tudo, é que nos sentimos mal com nós mesmos quando não nos enquadramos.

Alguns sentimentos que são socialmente condenados

Será que isso que sinto é certo?

– Sou adulto. Não posso pensar dessa forma

– Primeiro o dever, depois o prazer

– Ter ciúmes é imaturo

– Homem não tem medo

– Inveja é um sentimento indigno e ruim

– Ciúmes é posse. É um sentimento inadequado e ruim.

– A preguiça é um sentimento condenável.

– Ódio é um mau sentimento

– Não guarde rancor

– Não devo desejar o mal de outras pessoas

Não é bom ferir outras pessoas

– O desejo de vingança é baixaria

As pessoas que condenam esses sentimentos agem assim seguindo “regras de boas condutas”. Essas pessoas nunca se deram ao trabalho de examinar os prós e contra de cada uma dessas regras. São prescrições ditadas pela sociedade. A maioria das pessoas não questiona tais regras e, menos ainda, se dá ao trabalho de tentar entender onde elas são razoáveis e onde são prejudiciais.

Existe certo consenso social sobre os sentimentos que são nobres e desejáveis e aqueles que são desprezíveis e indesejáveis.

Esse consenso é mais baseado em princípios arbitrários como crenças religiosas e valores sociais estabelecidos por aqueles que estavam no poder em proveito próprio.

A vingança, por exemplo, é vista como altamente indesejável em diversas culturas e como desejável e obrigatória em outras.

De fato, a vingança tem diversas funções desadaptativas (por exemplo, desvia os recursos dos vingadores e daqueles que estão sob ameaça de vingança) e diversas funções adaptativas (por exemplo, saber que uma agressão física será vingada, tende a inibir aqueles que estariam dispostos a praticá-la).

As pessoas que exibem os sentimentos desejáveis são admiradas e elas próprias sentem-se bem por terem tais sentimentos. Aquelas que exibem sentimentos indesejáveis são consideradas inadequadas e condenáveis e condenam-se a si mesmas por sentirem tais coisas.

O que fazer

Temos que calcular quanto de satisfação obteremos seguindo o que sentimos e pensamos e quanto de consequência sofreremos por discrepar daquilo que é socialmente preconizado.  Em seguida, temos que tomar nossas decisões sobre o quanto seguiremos nossos sentimentos verdadeiros e quanto nos renderemos ao que é politicamente correto.

Claro, os limites para exercer aquilo que sentimos são os direitos das outras pessoas e os limites impostos pela realidade física.

Tenho direito em ser feliz ao meu modo ou existem modos legítimos e recomendados ou ilegítimos e condenados?

Certamente, não aceitar que sentimos e pensamos (sentir desconforto, vergonha, culpa pelo que sentimos e pensamos) e agir em desacordo com esses sentimentos torna a vida sem sentido.

Invalidar, punir, provocar emoções antagônicas, promover reações de segunda ordem (sentir vergonha por ter medo) pode fazer que a pessoa perca contato com algumas emoções, não consiga expressá-las, neutralize suas expressões ou as substitua, ou não reconheça quando estão sentindo-as.

Problemas com a validação dos seus sentimentos? Procure a ajuda de um psicólogo!

Sobre o autor

Ailton Amélio é psicólogo clínico, doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP (1985 - 2014). Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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