Ailton Amélio

Categorias

Histórico

Como ouvir desabafos

Ailton Amélio

14/05/2017 09h40

Muita gente não sabe como se portar diante de um desabafo. Certas pessoas procuram minimizar os significados dos fatos que causaram o desconforto em quem está desabafando. Outras pessoas contam histórias pessoais semelhantes àquelas relatadas por quem desabafa, porque acreditam que a desgraça compartilhada é menor. Outras, ainda, partem para os conselhos e para as indicações de soluções para diminuir o mal que está sendo relatado.

É possível que todos estes procedimentos tenham efeitos positivos. No entanto, um procedimento que, creio eu, é dos mais proveitosos, tem os seguintes passos:

  • Fase de entendimento do que está se passando com o outro
    • Ouvir atentamente o que está sendo relatado
    • Não apresentar opiniões
    • Empatizar com os seus sentimentos que estão sendo apresentados. Por exemplo:

            Mostrar expressões faciais das emoções correspondentes ao que quem está desabafando estaria sentindo

            Emitir vocalizações emocionais compatíveis com o que está sendo relatado (“Ah!, “Nossa!, “Terrível!”).

  • Pedir esclarecimentos que facilitem a compreensão do relato
  • Não apresentar conselhos não solicitados
  • Não contar casos semelhantes. Deixe quem desabafa ocupar o centro das atenções. Esses relatos de casos semelhantes podem desviar o foco de quem desabafa e do desabafo.
  • Depois de certo tempo, quando o desabafo já foi satisfatoriamente realizado, é provável que quem desabafou manifeste o desejo de ouvir o interlocutor: as regras que aconselham falantes e ouvintes a trocarem de papéis periodicamente e a necessidade de feedback levarão quem desabafa a agir desta forma (geralmente não podemos falar sozinho sem ouvir o outro).
  • Agora sim, aquelas coisas omitidas anteriormente podem ser bem vindas (contar casos semelhantes, colocar-se à disposição para ajudar, etc.).
  • Apresentar feedback mais amplo do que simplesmente empatizar, sem condenações e baseado naquilo que percebeu da situação do outro.
    • Usar adjetivos para classificar o que foi relatado: “Fácil”, “Difícil”, etc.
    • Relatar como percebeu os sentimentos do outro em tal situação.
    • Raciocinar com outras informações para enriquecer os comentários.

Exemplo de diálogo contendo um desabafo e sua recepção

Convenções:

D – Quem desabafa.

O – Ouvinte

Meus comentários estão entre colchetes  [  ]

            D – Estou furiosa.

            O – O que aconteceu? [Pergunta induzida pela frase acima. O ouvinte, por exemplo, não se sente à vontade para dizer “Que bonito brinco!” Mesmo que o diga (se o brinco for excepcionalmente bonito), ele se sentirá compelido a dizer, em seguida, algo do tipo “Porque você está furiosa?”]

            D- Meu ex-marido tratou pegar a nossa filha e deu cano!

O – Deu cano? [A repetição dessa parte da frase acima incentiva o interlocutor a expandi-la]

D – Sim. Ele sempre faz isso. Ele cria este tipo de expectativa para ela, não cumpre e depois ela fica chorando.

O – Que chato! [“Empatiza” – mostra sentimento semelhante ao do interlocutor]

E você como está se sentindo? [Mostra interesse pelos seus sentimentos].

            D- Revoltada! Eu ainda vou aprontar com ele.

            O – É? O que você pensa em fazer? [Pergunta para incentivar O a desenvolver o que falou na frase acima]

            D- Da próxima vez que ele se atrasar, vou sair com ela. Ele sempre foi assim, irresponsável. Ele também está com a pensão atrasada. Vou processá-lo.

O – [Apresenta cara de pesar para empatizar com os sentimentos de D] A pensão também está atrasada? [Pergunta para estimular a expansão dessa informação].

            D – Sim. É um canalha. Dá vontade de matar aquele desgraçado. [Não desenvolve a informação solicitada. Prefere expressar a sua raiva]

            O – Entendo a sua raiva. Eu também pensaria coisas assim [Apoia e solidariza-se com a raiva].

E quando chega, ele apresenta alguma desculpa? [Direcionamento de assunto. Esta pergunta pode tirar a outra pessoa do seu foco. Ela pode ser mais controlada pela necessidade de responder à pergunta do que de expressar o que estava sentindo ]

D – Não dá nenhuma satisfação.

            O – E a filha, como reage quando ele se atrasa? [Mostra interesse por outras informações relacionadas com o tema principal]

D- Fica muito triste e frustrada.

            O – O que pega mais você, o atraso ou os efeito na filha?

            [Quem está desabafando exagera, promete o inferno, xinga, ameaça, faz planos terríveis de vingança. Depois que ela se acalma, tudo isso atinge proporções mais realistas. O ouvinte não a contradisse, não a aconselhou, não reforçou ou enfraqueceu os seus planos. Sabia que boa parte do conteúdo desabafo era motivado pelo estado emocional de D. Quando esse estado amainasse, o ouvinte poderia apresentar seu ponto de vista e, talvez, ajudar D a desenvolver e a implementar um plano para lidar com a situção].

             Muitas vezes o desabafo dura horas. Se a pessoa transtornada é acolhida adequadamente, o transtorno passa mais rápido. Como os amigos sabem que poderão ter o seu dia de cão, não são severos com quem está na berlinda.

Recompense a outra pessoa por revelar-se

Mostre reações que reforcem o interlocutor. Diga coisas como:

  • “Gostei de ouvir você”
  • “Interessante isso que você está dizendo”
  • Envolver-se com o que está sendo dito
  • Mostrar prazer em ouvir coisas positivas
  • Elogiar a capacidade de relato do interlocutor

Problemas para expressar e acolher sentimentos? Procure a ajuda de um psicólogo!

Sobre o autor

Ailton Amélio é psicólogo clínico, doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP (1985 - 2014). Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Blog do Ailton Amélio
Topo